Como controlar cigarrinha do pasto e não perder capim
A praga que destrói pasto em semanas
A cigarrinha-das-pastagens é o maior inimigo do pecuarista que planta Brachiaria, especialmente Marandu. Em surtos, a praga pode destruir 30% a 60% da produtividade do pasto em 30-45 dias. Em uma fazenda de 500 ha com Marandu, isso pode representar perda de 2.000 a 4.000 arrobas por ano, ou R$ 600 mil a R$ 1,2 milhão de prejuízo. O problema na prática é que a cigarrinha aparece silenciosamente, ataca em ondas e quando o produtor percebe o estrago já está feito. Pasto amarelado, capim quase morto, lotação desabando. Vou mostrar como identificar, monitorar e controlar a cigarrinha de forma eficaz, com custo proporcional ao retorno.
O que é a cigarrinha-das-pastagens
São insetos pequenos (5-12 mm), de cor amarela, marrom ou cinza. Existem várias espécies no Brasil, mas as mais comuns são Mahanarva fimbriolata, Notozulia entreriana, Deois flavopicta. A ninfa (fase jovem) suga seiva da raiz e produz uma espuma branca característica. O adulto suga a seiva da folha, injetando toxinas.
O ciclo de vida
- Ovo: 2-4 semanas no solo- Ninfa: 30-50 dias na espuma- Adulto: 7-15 dias- Várias gerações por ano (3-5 nas águas)
Os danos no pasto
Da ninfa
Suga seiva da raiz, debilitando o capim. Reduz crescimento, perfilhamento e tolerância à seca.
Do adulto
Suga seiva da folha, injetando toxinas que causam queima foliar (folhas amareladas, depois secas). Pasto fica com aspecto de queimado.
Em casos severos
Mortalidade de 30-50% do pasto. Necessidade de reforma. Lotação cai pela metade.
Cultivares e suscetibilidade
Sensíveis (não plantar em região com cigarrinha)
- Brachiaria Marandu: muito sensível- Brachiaria decumbens: muito sensível
Resistentes (boa opção)
- Brachiaria Paiaguás: resistente- Brachiaria Piatã: tolerante- BRS Ipyporã: muito resistente- Brachiaria Mulato II: resistente
Imunes (a praga não ataca)
- Panicum maximum (Mombaça, Tamani, Zuri): praticamente imune- Capins do gênero Panicum: imunes
Como monitorar
Inspeção da espuma
De outubro a março, percorra os pastos. Procure a 'espuma' branca na base das touceiras. Cada espuma contém 1-3 ninfas. Mais de 5 ninfas/m² é nível crítico.
Pano de batida
Estique pano branco entre 2 pessoas, balance o capim acima. Conte adultos que caem. Mais de 3-5 adultos/m² indica controle.
Sinais visuais
- Manchas amareladas no pasto- Capim com aspecto queimado- Touceiras debilitadas- Mosca de pelos longos e brilhantes voando entre o pasto
Estratégias de controle
1. Controle biológico
Fungos entomopatogênicos como Metarhizium anisopliae infectam e matam cigarrinhas. Aplicação por pulverização. Custo: R$ 80-150/ha. Eficiência: 60-80%. Funciona melhor em condições úmidas.
2. Controle químico
Inseticidas piretróides ou neonicotinoides aplicados por avião ou trator. Custo: R$ 100-250/ha. Eficiência: 80-95% imediato, mas com efeito curto. Pode causar resistência se mal usado.
3. Controle cultural
- Pastejo rotacionado intenso (boi pisa as ninfas)- Alto pisoteio nas áreas afetadas- Uso de cultivares resistentes- Adubação adequada (pasto vigoroso resiste mais)
4. Cultivares resistentes
A melhor estratégia de longo prazo. Migrar de Marandu para Paiaguás ou Mulato II em áreas problemáticas. Custo de reforma: R$ 4.500/ha, mas problema resolvido por 10+ anos.
Cálculo: vale a pena controlar?
Sem controle (em ataque)
Perda média de 30% da produtividade.- Em 100 ha de Marandu (12 @/ha): perde 360 @ = R$ 108.000- Recuperação leva 2-3 meses
Com controle químico
- Custo: R$ 200/ha x 100 = R$ 20.000- Pasto preservado- Economia: R$ 88.000
Com controle biológico
- Custo: R$ 120/ha x 100 = R$ 12.000- Eficiência menor, mas sustentável- Economia: ~R$ 75.000 (com 70% de eficiência)
Com troca de cultivar
- Reforma para Paiaguás: R$ 4.500/ha- Investimento alto, mas elimina o problema- Payback: 12-18 meses pela maior produção do Paiaguás
Quando aplicar o controle
Janela ideal
Quando o monitoramento mostrar:- 5-10 ninfas/m² (ataque inicial)- 3-5 adultos/m² no pano de batida Aplicar antes de o ataque virar surto. Aguardar até ver dano visual significa que já se perdeu produção.
Estação
Outubro a março (águas) é o período crítico. Em fevereiro/março costuma ser o pior pico no Cerrado.
Combinando estratégias
Em áreas com Marandu (sensível)
- Monitoramento mensal nas águas2. Controle químico ou biológico no início do ataque3. Plano gradual de reforma para cultivar resistente
Em áreas para reformar
Em vez de replantar Marandu, escolha Paiaguás, Piatã ou Panicum. Custo similar, problema resolvido.
Manejo de pastagem para reduzir cigarrinha
Pastejo rotacionado intensivo
Lotação alta (mesmo que por pouco tempo) pisa as ninfas e reduz população. Pastejo contínuo favorece a praga.
Adubação correta
Pasto vigoroso suporta melhor o ataque. Pasto fraco e degradado é mais devastado.
Roçada estratégica
Em áreas muito atacadas, roçada baixa pode interromper o ciclo da praga.
Erros comuns no controle
Primeiro: esperar ver o estrago para controlar. Segundo: aplicar inseticida sem monitoramento (gasta sem precisão). Terceiro: usar mesma substância repetidamente (cria resistência). Quarto: aplicar em condições erradas (vento, chuva). Quinto: não rotacionar princípios ativos. Sexto: insistir em Marandu em região com cigarrinha endêmica. Sétimo: não fazer pastejo rotacionado em áreas afetadas.
Lista de ações contra a cigarrinha
- Identifique cultivares plantadas e nível de risco. 2. Inicie monitoramento em outubro. 3. Inspecione 10 pontos por gleba/mês. 4. Use pano de batida para confirmar. 5. Tenha controle biológico ou químico em estoque. 6. Aplique no início do ataque. 7. Rotacione princípios ativos. 8. Mantenha pastejo rotacionado. 9. Adube pastagem para fortalecer. 10. Programe reforma de áreas críticas para cultivar resistente.
Conclusão
Controlar cigarrinha-das-pastagens é fundamental para fazendas com Brachiaria sensível. O custo de R$ 100-250/ha em controle preventivo evita perdas de R$ 1.000+/ha em surtos. A solução de longo prazo é migrar para cultivares resistentes (Paiaguás, Piatã, Mulato II) ou imunes (Panicum). O monitoramento mensal nas águas é a melhor ferramenta de manejo. Em fazendas com cigarrinha frequente, a economia em controle pode ultrapassar R$ 100 mil/ano. Não espere ver o estrago. Monitore, aja cedo e planeje a reforma com cultivares resistentes. A cigarrinha não vai embora sozinha. Ela continua atacando até o pecuarista mudar a estratégia.



